November 2011
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Janela espelho.
“O espelho, este objeto mágico de superfície fria e profundidade vazia, capaz de criar ilusionismos fantásticos é o único lugar onde Narciso se encontra e a partir do qual, na paisagem de si mesmo, nega-se a realizar-se com o outro e esvazia nesse ato a realização de sua própria humanidade.”
(As paisagens do outro em nós, Manoel F. de Sousa Neto)
O sonho que não cabe na janela que não é janela. O espelho vazio. A imagem do momento morto. Luz fria estourando sonho. Blow up.
E a carta no final do livro. E todo esse revirar as memórias.
É isso mesmo, eu preciso repetir palavras porque elas existem aquém de mim.
Não é coragem para nós. É voragem.
Hoje me senti iniciada. Olhando reto pra lua ela deu um pulo no meu terceiro olho e nós duas brilhamos. Fiquei azul, como sempre.
Sua miopia, meu portal.
November, talvez a gente se guie sem saber
Retilínea. Em que sentido? No meu.
É sempre mais difícil…
Tive sorte esses dias
Nunca sei exatamente. Porque sinto.
Nina era preta e persa. Luna dormia sem caber direito no sono, pé pra fora do colchão. Nina entrou no entreaberto da porta e se enroscou no pé de Luna como uma pantufa preta. Luna mexeu os cílios, ficou nesse mundo meio não mundo. Mundo do meio. Procurou Nina com os olhos, não achou.
Ainda em sono monstro, pisou leve os azulejos frios até o banheiro. Ficou olhando sem ver o espelho durante um tempo, encostada na porta. Ouviu o barulho da chuva e foi até a varanda abrir as cortinas. O dia entrou lento em seus olhos. Ligou o som, canção matinal. Blue moon. Combinou o macio da chuva.
Voltou ao banheiro, escovou os dentes. Nina passou toda decidida.
A sala não tinha muitos móveis. Em frente ao som, na parede, um mural de cortiço lembrava que não havia nada a ser feito naquela manhã. A manhã estava livre e almofadas folgadas e estampadas se ofereciam. Se jogou naquele canto e ficou vendo o céu do outro lado do blindex. O gritinho do Elvis foi um rasante macio e molhado… A única coisa que pesava eram seus olhos, quase de volta, no túnel.
Nina veio pelo caminho das pernas até chegar em seu colo. Se aconchegou numa dança redonda. Só sobrou o Elvis na sala. Ou quase. Porque nem bem uma nuvem gigante se aproximou amaciando o blindex, Luna viu Elvis num rasante quase invisível /
Love deslizando, sumindo of my own /
(bom dia)
@2010
E o meu mal é ser apressada. É dizer vamos e dobrar à direita (ou à esquerda), sem me preocupar com atalhos.
À deriva, como a vida aparece em meus olhos.
Vamos juntos? Não, não quero. A minha foto preferida é uma lua dilacerada, cheia, partida em mil pedaços pelas ondas duras e certas e firmes. Ao mesmo tempo, ela brilha ali sozinha ao redor da escuridão, aos nossos olhares melados e famintos. Sem se importar com a gente. Dilacerada, firme, melada. Eu quero você e não quero. Eu não quero você. Eu quero.
Vejo essa indecisão dos amantes. Se especializam em ter medo do medo e em fugir. Me cansa!
Mais fácil e mais leve é deixar-se dilacerar pela água e continuar inteira e brilhante. Isso é não pensar.
Não pensem, mentes inteligentes. Esqueçam. Isso não vai levar vocês a lugar algum.
E nunca, nunca, nunca na vida, pensar em cortar a àgua vai cortar a água ou impedir que ela corte.
Poupem-me dos gritos.
Combinamos às 4:20. Ele ligou as 17h. Oi. Oi. E aí? E aí o quê? Tudo bem.
Saudades de você, vamo se ver, a lua. A lua, é. Gigante.
Convite à sinusite. Nós dois, que temos meio que uma alergia um ao outro, dessas alergias incuráveis, inevitáveis. Estamos sempre em contato. Quando eu esqueço, ele liga. E é sempre assim, atrasado, porém quase que premeditado. Nos damos bem, vamos no mesmo compasso.
Quando nos vemos de novo?
Meu bem, isso é um livro de ensaios. E fique grato.
E quando vc tem um dejavu vendo alguém virar pássaro no filme?